Seleção perdeu 1,8 milhões de seguidores no Instagram: o que a saída do Ronaldo ensina às marcas

Gráfico: a Seleção perdeu 1.833.821 seguidores no Instagram e o Cristiano Ronaldo ganhou 296.378 entre 30 de setembro e 2 de outubro de 2026, segundo o Social Blade

8 min de leitura · atualizado a 3 de outubro de 2026

Medi com o Social Blade: entre 30 de setembro e 2 de outubro de 2026, a conta da Seleção no Instagram (@portugal) perdeu 1.833.821 seguidores, 7,3% do total, e o pior dia foi 1 de outubro. Nos mesmos três dias, o Cristiano Ronaldo ganhou 296.378. A marca pessoal resistiu e a marca institucional pagou a conta.

Quando um casal famoso se separa, os amigos escolhem um lado. Nas redes sociais, essa escolha faz-se num clique e fica registada num contador público. A 2 de outubro estive em direto na SIC Notícias, com a Marta Atalaya, a comentar o caso, e a seguir medi o que se passou. Desde 2017 que a televisão me chama para comentar o digital, na SIC Notícias, na CNN Portugal e noutros canais, e a lista está na página sobre mim.

O que aconteceu entre 27 de setembro e 2 de outubro

  1. Domingo, 27 de setembro. O Ronaldo ficou no banco, sem jogar, na vitória de Portugal sobre a Noruega em Oslo, para a Liga das Nações, segundo a Sky Sports News.
  2. Terça-feira, 29 de setembro. Falhou o treino em Malmo e saiu do estádio com a sessão a decorrer, segundo o ECO. No dia seguinte, o selecionador Jorge Jesus explicou que, no Al Nassr, o Ronaldo não treinava nos dois dias a seguir aos jogos, e que foi isso que aconteceu.
  3. Quarta-feira, 30 de setembro. Depois da conferência de imprensa do Jorge Jesus em Copenhaga e de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Pedro Proença, o Ronaldo anunciou no Instagram que deixava o estágio e prometeu “dizer a verdade” “a seu tempo”. A FPF confirmou em comunicado que a preparação seguia com os restantes 24 convocados (JN). Nas fontes que li até 3 de outubro, nenhuma refere um anúncio formal de fim da carreira internacional.
  4. Quinta-feira, 1 de outubro. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2 em Copenhaga.
  5. Sexta-feira, 2 de outubro. A SIC Notícias publicou uma peça em vídeo sobre o efeito nos seguidores, com o meu comentário em direto.

Como medi

  • Ferramentas: Social Blade (seguidores por dia) e vidIQ (vídeos e canais do YouTube).
  • Contas: Instagram da Seleção (@portugal, a conta ligada no site da FPF, em socialblade.com/instagram/user/portugal), Instagram do Cristiano Ronaldo (socialblade.com/instagram/user/cristiano) e canal de YouTube da FPF (socialblade.com/youtube/handle/fpf.oficial). O Social Blade não tem dados do X da Seleção (@selecaoportugal), e não usei o TikTok porque o site da FPF não liga nenhuma conta oficial.
  • Período: de 20 de setembro a 3 de outubro de 2026. O Social Blade não indica o fuso horário, por isso trato cada data como dia de calendário. O dia 3 estava incompleto.
  • O que a variação mede: é líquida (seguidores novos menos saídas e contas removidas pelo Instagram), não o número exato de pessoas que deixaram de seguir. As médias de gostos e comentários são as que o Social Blade dá por publicação, sem indicar a janela.
  • YouTube: nove pesquisas no vidIQ por vídeos publicados desde 30 de setembro, ordenados por visualizações: cinco em português (por exemplo “Cristiano Ronaldo deixa estágio seleção” e “CR7 sai da seleção portuguesa”), três em inglês (“Ronaldo leaves Portugal camp Jorge Jesus”, entre outras) e uma em espanhol. Ficaram 56 vídeos únicos, entre eles a conferência de imprensa de 30 de setembro. Em 18 canais o país vem do vidIQ; nos restantes, da língua e do meio que publica.
  • Recolha: 3 de outubro de 2026, perto das 10h00 de Lisboa. Os dados em bruto, com a hora da recolha e a lista completa das pesquisas, estão disponíveis a pedido.

Seleção e Ronaldo no Instagram, dia a dia

Data Seleção (@portugal) Variação Ronaldo (@cristiano) Variação
Média diária de 20 a 29 de setembro +5.547 -41.983
29 de setembro 25.004.330 +7.333 679.255.076 -64.025
30 de setembro 24.921.116 -83.214 679.191.890 -63.186
1 de outubro 23.866.047 -1.055.069 679.275.602 +83.712
2 de outubro 23.170.509 -695.538 679.551.454 +275.852
3 de outubro (incompleto) 23.081.763 -88.746 sem dados sem dados
Total de 30 de setembro a 2 de outubro -1.833.821 (-7,3%) +296.378 (+0,04%)

Fonte: Social Blade, recolha a 3 de outubro de 2026. Antes de 30 de setembro, a Seleção ganhava em média 5.547 seguidores por dia e o Ronaldo perdia 41.983. Em três dias, as duas curvas trocaram de sentido. O dia 1 de outubro concentrou 58% da perda da Seleção, e o dia 2 concentrou 93% do ganho do Ronaldo (275.852 de 296.378).

A imprensa chegou a números parecidos com outras ferramentas e a outras horas: o Record contou mais de 1,5 milhões perdidos até 2 de outubro, a Renascença usou o HypeAuditor e a CNN Portugal mediu as primeiras horas. O JN, também com o Social Blade, escreveu que o Ronaldo perdeu 201.392 seguidores “desde segunda-feira”; nos meus dados, a soma de segunda a quarta dá 201.992, antes da recuperação.

No YouTube, a conversa fez-se sobretudo em canais de fora de Portugal

Os 56 vídeos sobre o caso que o vidIQ encontrou somavam 15.689.654 visualizações à hora da recolha. Os canais portugueses ficaram com 3,4% (seis vídeos, do Record, do NOW e do zerozero), os brasileiros com 26,1% e os de outras línguas e países com 70,4%. Dois canais em português sem país identificado somam 0,2%. O vídeo mais visto era um comentário da Jovem Pan Esportes, do Brasil, com 1,42 milhões, seguido de dois vídeos curtos em inglês com cerca de 1,35 e 1,32 milhões.

O canal da FPF manteve os 545 mil subscritores de 27 de setembro a 3 de outubro, segundo o Social Blade, e nenhum vídeo dele apareceu nas pesquisas. É uma amostra, não um censo: o vidIQ devolve os vídeos mais relevantes de cada pesquisa, mede o canal e não quem vê, e não trouxe vídeos da SIC Notícias, da CNN Portugal nem da TVI. Por isso leio os 3,4% como um mínimo. A proporção é clara: a história de uma marca portuguesa foi contada sobretudo por canais de fora de Portugal.

Marca pessoal contra marca institucional: porque é que uma resistiu

A conta do Ronaldo é seguida por causa dele. A conta da Seleção é seguida por causa da equipa, e a minha leitura é que uma parte desse público chegou lá pelo capitão. Quando o capitão sai em conflito com o selecionador (“conflito” na Renascença, “atrito” no Record, “polémica” na SIC Notícias), uma parte desse público deixa de ter razão para ficar. E tem um gesto simples para mostrar desagrado: deixar de seguir.

A FPF respondeu com um comunicado a dizer que a preparação seguia com os restantes 24 convocados. Em campo, Portugal ganhou por 4-2. Nas redes, 1 de outubro, o dia da vitória, foi o de maior perda. Uma vitória em campo não travou uma crise de reputação.

O que isto ensina a quem gere uma marca

Não precisas de 25 milhões de seguidores para viver isto. Uma empresa com um fundador muito exposto, uma marca que trabalha com um embaixador ou uma equipa comercial que se confunde com quem a lidera corre o mesmo risco, a uma escala menor.

1. A crise mede-se em dias, não em horas

A 30 de setembro, que só apanhou as horas a seguir ao anúncio, a Seleção perdeu 83.214 seguidores. No dia seguinte, o primeiro completo, perdeu 1.055.069, quase treze vezes mais, e no terceiro ainda perdeu 695.538. Se tivesses medido o estrago só na primeira noite, terias subestimado a crise. Neste caso a perda continuava ao quarto dia, por isso eu planearia a resposta para pelo menos 72 horas, com uma leitura de seguidores, comentários e menções à mesma hora todos os dias, e com alguém com autoridade para decidir ao segundo e ao terceiro dia.

2. A marca pessoal e a institucional separam-se: decide cedo qual proteges

O Ronaldo vinha a perder entre 54 mil e 75 mil seguidores por dia nos três dias anteriores e passou a ganhar. A Seleção vinha a ganhar e perdeu mais de 7%. Enquanto as duas marcas estão alinhadas, somam. No conflito, a audiência escolhe um lado; neste caso foi com a pessoa, e a explicação mais provável é a relação que tem com ela. Que contas falam, quem assina, o que fica por dizer e o que acontece aos conteúdos em que a pessoa aparece: tudo isto se decide antes da crise, numa reunião com calma, e não num grupo de WhatsApp às onze da noite.

3. Comentários não são saúde, são temperatura

O Social Blade indica, para a conta da Seleção, uma média de 31.638 comentários e 67.490 gostos por publicação, cerca de 47 comentários por cada 100 gostos. Na do Ronaldo, 1,5 por cada 100. Num relatório automático, a conta da Seleção aparece com uma interação invejável. É uma leitura de febre, não de saúde. Um rácio de comentários que dispara pede leitura, não celebração: lê uma amostra, separa o tema, a língua e o tom, e cruza com os seguidores. Se os comentários sobem e os seguidores descem, não estás a ganhar interação: é provável que estejas a perder confiança, e em público.

É este o trabalho que faço antes de a crise chegar, com as empresas que acompanho como consultor de redes sociais: definir o que se mede, quem decide e que marca se protege.

Perguntas frequentes

Quantos seguidores perdeu a Seleção no Instagram depois de o Ronaldo deixar o estágio?

Nos dados do Social Blade que recolhi a 3 de outubro de 2026, a conta @portugal teve uma variação líquida de menos 1.833.821 seguidores entre 30 de setembro e 2 de outubro, 7,3% do total. Só a 1 de outubro, dia do jogo com a Dinamarca, a variação foi de menos 1.055.069.

O Cristiano Ronaldo também perdeu seguidores?

Perdeu 63.186 no dia em que deixou o estágio e depois ganhou 83.712 e 275.852 nos dois dias seguintes, segundo o Social Blade. No saldo dos três dias ficou com mais 296.378, quando nos dez dias anteriores perdia em média 41.983 por dia.

Porque é que a marca institucional perde mais do que a marca pessoal numa crise?

No caso da Seleção, a leitura mais provável é que uma parte da audiência tinha relação com a pessoa e não com a instituição. Quando as duas entram em conflito, quem seguia a instituição por causa da pessoa tende a sair, e deixar de seguir é a forma mais simples de mostrar desagrado.

O que deve uma empresa fazer nas primeiras 72 horas de uma crise nas redes sociais?

Medir seguidores, comentários e menções à mesma hora todos os dias, ler os comentários em vez de os contar, e ter decidido antes da crise qual das marcas protege. No caso da Seleção, o maior corte chegou no segundo dia e a perda continuava ao quarto, por isso a resposta não acaba na primeira noite.

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